P´ra quem diz “não há racismo”,
e então vem, e fala, e fala, e fala:
só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Peles brancas no sobrado,
peles pretas na senzala:
só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Fartas negras, tetas fartas,
bocas brancas a sugá-las;
só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Costa preta como escada,
perna branca que a escala.
Só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Corpos brancos lá na elite,
corpos pretos lá na vala…
Só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Na cadeia, a carne preta,
na favela, nem se fala;
só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Com meu deus, meu compromisso,
o seu deus agride e cala.
Só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Se o racismo é mala leve,
então me ajude a carregá-la:
só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!

Gente preta, é o racismo,
o que, no fundo, nos abala:
só conhece a dor do tiro,
quem, no peito, apara a bala!